Pular para o conteúdo principal

Setembro amarelo ou uma vida amarela?

 

   Sei que Setembro já acabou e até demos uma cor para esse mês: amarelo, em homenagem a  Mike Emme que cometeu suicídio em 1994, ele que era um jovem habilidoso e reformou um Mustang 68 pintando-o de amarelo. O que mais tarde (2003) ficou registrado pela OMS como o mês de combate a prevenção ao suicídio. Sei que é um tema ainda bem delicado de conversar e esse texto é na verdade sobre a nossa saúde mental e não necessariamente o suicídio. 

    Sempre fui uma pessoa ansiosa, sempre fiz meus trabalhos escolares ou acadêmicos muito antes dos prazos. Sempre fui muito organizada e não conseguia descansar até que tivesse terminado tudo o que tinha para fazer ainda que tivesse o tempo do mundo todo. Os anos foram passando e essa ansiedade sempre ali acompanhando, até que não muito tempo atrás ela passou de algo esporádico a trazer danos reais e físicos para mim como: preocupação excessiva, queda de cabelo, criar os piores cenários possíveis na minha cabeça, sensação iminente de morte são alguns dos sintomas que senti até receber o diagnóstico de ansiedade generalizada.

    Sinto-me melhor de como já estive mas ainda é uma batalha diária, medicação, terapia muita oração e acolhimento são algumas das coisas que tem me ajudado a passar por esse momento difícil. Nem sempre me vejo ganhar essa luta mas a gente vive um dia de cada vez. 

    Acredito que só quem já passou ou passa por algo assim entende o quão difícil é. Quantas vezes já ouvi: para de ser ansiosa, de se preocupar, mas na realidade é uma doença que não controlamos os sintomas, os administramos. E acredito que é no  administrar os sintomas que  esteja a nossa vida amarela. Sendo gentil consigo mesmo, acolhendo os outros que também passam por coisas assim, e tendo muitas conversas honestas, que muitas vezes nos salvam.

    Penso também que o sofrimento e a fragilidade da vida nos levam para mais perto de Deus. Quando me percebo frágil, fraca e falha  é que entendo que o convite de Jesus (Mt 11:28) não é para os super espirituais, os que tem tudo resolvido, não, é justamente para o pobre, miserável, cego e nu, aquele que sofre, que se percebe fragilizado e precisando de ajuda, que Ele veio e vem. O convite está aí.

     Não quero romantizar os transtornos psicológicos, acredito que haja sim cura seja ela milagrosamente instantânea ou milagrosamente processual, um dia de cada vez, com ajuda que vem de Deus que criou a medicina, bons profissionais e todo o resto, e cá entre nós essa cura processual é a que mais se encaixa em muitos processos.

     Talvez eu e você tenhamos que lidar com essa vida amarela por muitos anos, ou até Jesus voltar. Isso não faz de nós menos crentes ou de Deus ruim. É só o que é. Um dia não teremos mais dores, choro ou sofrimento, mas até lá a gente vive o dia de hoje, porque é o único que temos que dar conta. 

     E para você que se identificou com esse texto quero dizer que estamos juntos, desejo que essas palavras sejam um quentinho no seu coração. Você não é seus pensamentos ou sentimentos. Um dia de cada vez. Escolha ficar e lutar. Alguns dias vencemos outros somos vencidos, mas a batalha não foi/é perdida. Fique bem, um forte abraço.

"Ainda que minha carne e meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre".

Salmos 73:26

Música: Esperando na janela Cougumelo Plutão- Escute entendendo que Deus é esse você. Obs: O cantor escreveu essa canção para Deus baseada em sua luta contra a depresão. 

https://www.youtube.com/watch?v=rnmrQuJOMEc&ab_channel=Kaduespanha 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Um relato sobre o câncer- Por Sueli Martins (minha mãe)

“Até aqui nos ajudou o Senhor. Grandes coisas fez por nós e por isso estamos alegres.” - Salmos 126:3 Há exatamente um ano, descobri um nódulo na mama esquerda enquanto tomava banho. Fiz alguns exames e infelizmente veio o resultado: Era mesmo câncer, um nódulo de 2,2 cm estava apontando em meu corpo. Quando você recebe um diagnóstico desses é como se recebesse uma sentença de morte, em um primeiro momento. Só que   na realidade não é bem assim. Com a medicina avançada e avançando dia a dia, existem várias maneiras de se combater essa triste doença. Fiz outra bateria de exames, dessa vez mais específicos, que constataram o tipo de tumor e qual seria o tratamento. Começando assim uma longa batalha em minha vida. Meu nome foi para um fila de regulação do SUS, sim, fiz o tratamento todo pela rede pública. Tive de esperar algum tempo. Confesso que essa espera me deixou angustiada, ansiosa a ter que ainda ser chamada para dar início ao tratamento. Sem uma data marcad...

Me casei, e agora?

Até os meus 19 anos, casar era um sonho muito grande no meu coração. Não diria que era o maior sonho da minha vida, já que morar fora ocupava o primeiro lugar dessa lista. Assim como muitas meninas jovens, sempre gostei de livros e filmes românticos — li e assisti a muitos — e fui bastante influenciada por essa ideia hollywoodiana sobre o amor. Após os meus 19 anos e minha primeira desilusão amorosa (gostar de alguém que não correspondeu aos meus sentimentos), passei a dizer que me casaria com um gringo de olhos azuis. Não sei bem de onde tirei essa ideia ou essa possibilidade, já que morava no Brasil e não tinha nenhuma condição financeira de fazer intercâmbio nem nada parecido. Hoje, olhando para trás, penso que foi uma forma do meu coração se proteger de outra rejeição — desejando algo tão distante e improvável, as chances de me ferir eram mínimas. Então, passei a nutrir esse sonho, ou melhor, essa ideia, no coração. Ao longo dos anos, fui bastante confrontada por pessoas próximas...

Setembro: a humildade dos pequenos começos e o curso de alemão

Setembro mal começou e já tem sido um mês de muitos aprendizados e muita adaptação por aqui. Depois que me mudei de Belfast para a Alemanha, muita coisa vem acontecendo: muitas adaptações e novos começos, como falei um pouco no texto de agosto. Rolando pelo Pinterest um dia, vi uma citação com tom humorístico sobre o quanto, às vezes, a gente já quer ser muito bom em algo que acabou de começar, e pude me identificar com isso ainda mais nesse momento presente, fazendo um curso de alemão. Minha ideia ao chegar aqui foi ter alguma coisa para fazer, e voltar a estudar me pareceu uma boa forma de tentar receber algumas sugestões e dicas úteis de como poderia dar continuidade ao aprendizado dessa língua tão difícil e cheia de estigmas. Mas, preciso dizer: não tem sido fácil. Primeiro, porque o percurso até a escola é bem longo todos os dias, é preciso acordar super cedo e lidar com toda a complexidade que é aprender um novo idioma. Eu diria que essa é uma das experiências que mais tem me co...