Nesses meus poucos anos sendo adulta (ainda estou chegando aos 30 bem nova, eu sei), comecei a perceber e a vivenciar um sentimento que demorou para que eu conseguisse entender, para então poder descrever. E, há alguns meses, ele me visitou de novo, de forma mais intensa. Me encontrou em um momento em que eu tinha mais tempo para refletir, ponderar e até para escrever. Demorou para que eu percebesse que esse sentimento era muito parecido com o luto, mas depois eu entendi que não era só parecido: era ele mesmo.
Sendo assim, de início foi meio complexo entender esse luto, sendo que ninguém naquele momento tinha falecido, pois não era um luto porque alguém tinha partido. Mas era um sentimento de perda. Perda da pessoa que eu achava que seria, da vida que teria e de todos aqueles sonhos juvenis que sonhamos quando somos jovens e achamos que vamos mudar o mundo. Eu tinha muito desse ímpeto juvenil: queria viver por um grande propósito, fazer a diferença no mundo. Até me deparar com a realidade como ela é: real, crua, muitas vezes sem espaço para esses sonhos, pois preciso pagar as contas, estudar, cuidar da casa, da saúde, e nem sobra muito tempo para essas coisas abstratas.
Então finalmente entendi que esse sentimento de perda estava ali presente porque, de fato, foi — e tem sido — um luto me despedir desses ideais irreais que eu carreguei durante tanto tempo. E o mais louco é pensar que, se alguém me perguntasse quais eram as minhas expectativas sobre como seria meu futuro, eu nem lembro bem o que esperava ou sonhava, além da superfície, né? Talvez eu diria que sonhava em sair do Brasil, me casar, ter um filho ou dois, continuar na missão. E aí minha vida mudou bastante: sim, eu saí do Brasil, me casei, continuei um tempo na missão, mas muitas coisas mudaram — eu mudei.
Acredito que é desse luto que estou sofrendo: da mudança de ser alguém diferente de quem já fui e da pessoa que eu achava que seria nessa fase da minha vida, nesse futuro que eu tanto pensava, sonhava acordada. E a verdade é que eu lamento. E, quando digo lamento, é quase como dizer adeus aos poucos, sem nem saber direito ao quê. Talvez, no fundo, seja um adeus a essas expectativas que já não fazem tanto sentido hoje. É pensar que eu imaginava minha vida de uma forma um tanto diferente, mas sem saber direito como explicar como eu imaginava ou esperava. Só diferente.
E digo tudo isso — melhor, escrevo — quase que me censurando, pois eu tenho uma boa vida, muito abençoada, cheia de privilégios e boas coisas para me alegrar e louvar ao Senhor. Mas, ainda assim, encontro espaço para esse luto. E está tudo bem, pois tenho aprendido também que duas coisas podem coexistir, sendo elas, nesse cenário: o luto pelas expectativas da pessoa que eu seria e da vida que teria, em contraste com a gratidão pela vida que tenho.
Escrever sobre isso alivia e me ajuda a organizar todos esses pensamentos e sentimentos meio caóticos, sem sentido. Pois assim consigo seguir, entender que o que me cabe fazer é como na frase que citei no início: aceitar a vida que tenho. E esse “aceitar” aqui não deve ter uma conotação de peso, mas de cair em si de uma forma positiva e me alegrar pelo que tenho, ao invés de pensar no que não tenho. De encontrar contentamento. E continuar, sempre continuar, vivendo de peito aberto, aceitando o presente e todas as coisas que virão. Pois a vida é agora.

Comentários
Postar um comentário